Émile Meyerson [1859 – 1933] fez a distinção entre “leis empíricas”, por um lado, e “leis causais”, por outro lado.
A lei empírica especifica como um sistema é alterado quando certas condições são modificadas, e permitem-nos prever o decurso de um processo natural e manipular esses processos para que sirvam os nossos interesses.
Em contraposição, uma lei causal é a aplicação do Princípio de Identidade [A=A] à existência de objectos no tempo, e estipula que há sempre algo que se mantém através da mudança. No caso de uma reacção química, por exemplo, os átomos envolvidos permanecem os mesmos ao longo do processo de rearranjo; e não existe ninguém que possa negar racionalmente que a primeira célula viva, que surgiu no nosso planeta, existe ainda e até hoje.

'Angelus', de Jean-François Millet
Fazendo uma analogia entre as leis da ciência e as leis morais, a Esquerda entende as leis morais como leis empíricas que são úteis porque permitem prever e manipular o comportamento humano para que sirvam os interesses e a mundividência da elite política.
De um modo diferente, os conservadores vêem as leis morais como leis causais, porque verificam a existência de algo que se mantém através da mudança. Para os conservadores e para os cristãos em geral, não é o desejo de previsão manipuladora de comportamentos que orienta as leis morais, mas antes é o desejo de conhecimento ontológico [conhecimento intrínseco do Ser].
Na medida em que uma lei moral é uma lei causal, ela implica uma verdade necessária“o que é, é; e não pode não ser” [Aristóteles]. Porém, uma lei moral, entendida como “lei causal”, também tem um conteúdo empírico, porque estabelece a reivindicação à existência de valores objectivos ao longo do tempo — e é esta dualidade da lei moral, segundo os conservadores e entendida como lei causal, que a torna mais nobre e completa do que a lei moral empírica.
A busca daquilo que se mantém ao longo da mudança foi coroada de êxito na teoria atómica, por exemplo; e também nas leis da conservação da mecânica.
A entropia leva a que as leis morais sejam vistas, pela Esquerda, apenas como leis empíricas. Na medida em que a Esquerda vê a realidade exclusivamente como um sistema isolado, a Segunda Lei da Termodinâmica quando aplicada às leis morais obnubila o seu estatuto de leis causais, porque a entropia não é uma “substância” passível de ser conservada ao longo do tempo. A entropia é uma relação “não-causal”, porque ocorre de forma unidireccional em processos naturais em sistemas isolados.
Ao contrário do que acontece com os conservadores, o foco da ética de Esquerda é a entropia, e não a conservação; e por isso é que as duas mundividências são incompatíveis e de muito difícil conciliação.