sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Filme nacional pago com dinheiro público trata traficantes como “heróis” (O Banco Itaú e outras empresas particulares estão no meio)


Filme nacional pago com dinheiro público trata traficantes como “heróis”


“Forçar um homem a fazer contribuições em dinheiro para a propagação de opiniões nas quais ele não crê e abomina é pecaminoso e tirânico”.
(Thomas Jefferson)

 Dezenas de empresas e governos acotovelam-se na lista de apoiadores do filme, onde “traficantes são comparados a cangaceiros e retratados como heróis”.
 Até o momento da edição deste texto, o longa-metragem de animação brasileiro “Uma História de Amor e Fúria” permanecia inédito. Ou seja: todas as informações a respeito do filme são aquelas disponíveis na Internet e publicadas pela imprensa.

 Em reportagem da Folha de S.Paulo de 7 de outubro de 2012 (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/70465-cristo-redentor-e-destruido-em-nova-animacao-nacional.shtml), a produção era assim descrita:

 Brasil, 2096. A água é controlada por uma empresa bilionária chamada Aquabrás. O presidente do Brasil é um pastor evangélico com relações estreitas com milícias que possuem ações na bolsa e matam crianças para proteger interesses da elite.

Não é um futuro tão difícil de imaginar. Mas o potencial de polêmica é o combustível de "Uma História de Amor e Fúria", animação escrita e dirigida por Luiz Bolognesi, roteirista de "Bicho de Sete Cabeças" (2001), que promete ser um marco do gênero na filmografia brasileira.

(...)

A animação é um épico que começa em 1566, próximo à fundação do Rio (1565), passa pela revolta da Balaiada, no Maranhão, por movimentos estudantis nas décadas de 1970 e 1980 e culmina neste futuro distópico, cujo maior choque visual é o Cristo Redentor em ruínas.

Além de destruir o Cristo Redentor, o filme exibe discurso francamente favorável aos traficantes. Pelo menos é o que deixam claro o texto e as palavras do diretor:

TRAFICANTE HERÓI

O visual fantástico esconde o tom didático do roteiro ao tratar de revoluções dos oprimidos contra a elite.

Traficantes são comparados a cangaceiros e retratados como heróis. "Todo mundo achava Lampião um monstro, assim como veem os traficantes hoje", polemiza Bolognesi. O filme vai mais longe. Diante do corpo de um traficante morto, o protagonista fala: "Meus heróis não viraram estátuas, mas morreram lutando contra eles".

"Essa narcocultura é erótica. O que vende no exterior é filme de mano com pano na cabeça e arma na mão, como 'Cidade de Deus' e 'Tropa'. A violência é lamentável, mas o homem revoltado produz realidade. E ela é vida e morte."

 Cineasta “vitimizado”

 Como não poderia deixar de ser, o responsável pelo filme “simpático” aos traficantes reclama das “dificuldades” de levantar o orçamento da produção:

 "Foi extremamente difícil vender o projeto. Todo mundo me chamava de louco", diz o diretor. Bancado pelas produtoras Gullane e Buriti, o longa levou seis anos para virar realidade, teve um orçamento em torno de R$ 4,5 milhões e uma equipe de 30 jovens animadores.

A informação publicada pelo jornal é escandalosamente incorreta: o filme teve milhões em dinheiro público para sua realização. Na verdade, “Uma História de Amor e Fúria” é um verdadeiro campeão de arrecadação de verbas públicas, ao contrário do que quer fazer crer o coitadismo de seu diretor.

 No site da Ancine – Agência Nacional do Cinema, é possível rastrear os apoios que a produção teve através dos mecanismos públicos de investimento direto e incentivo fiscal. O projeto é antigo e mudou de nome (começando com “Lutas”). Nos diversos links abaixo, é possível se escrever a história do projeto com base na generosidade dos apoiadores traduzida em milhões destinados à produção:







É curioso perceber como o projeto “evolui” enquanto coleciona apoios: em 2007, ele recebe 500 mil reais da própria Ancine para “produção de finalização de obra cinematográfica de longa-metragem”. Mas como é possível iniciar um filme por sua “finalização”? Em 2008, mais 360 mil através de “outros editais”. Em 2009, o filme recebe recursos pelo Prêmio Adicional de Renda referente a outro título, “Chega de Saudade”, assim como em 2010: mais 150 mil reais da própria Ancine por “Verônica”. No link seguinte, o filme ganha um subproduto (Lutas.doc, “ex - Lutas Do Povo Brasileiro Do Tacape Ao Ar 15”) e vira uma “Série de documentários de 55 minutos a serem exibidos em TV aberta, festivais nacionais e internacionais de cinema e vídeo com objetivo de descortinar a história do Brasil mostrando que a nossa história recente é resultado de inúmeras lutas e guerras brasílicas. São retratados a Guerra dos Bárbaros, a Guerra do Paraguai, Cabanagem e a revolução de 30” e é turbinado por mais de 800 mil reais em incentivos fiscais. Até que finalmente o projeto se transforma em “uma animação de longa-metragem. Um sujeito que está vivo há quase 600 anos conta suas peripécias pessoais que se confudem (sic) com a história do país.” Neste momento, os valores relativos ao filme explodem: são 3.364.467,44 de dinheiro estadual, municipal e federal.

Com tantas modificações, variações e jogadas burocráticas, fica difícil para o contribuinte saber quanto pagou e por qual produto. Da mesma maneira, é complicado julgar se cada apoiador sabia, de fato e em cada momento, onde estava enfiando o dinheiro de seu imposto.

 Estatais, governos e empresas privadas dão todo o apoio ao filme

 No site de uma das produtoras do filme (http://www.gullane.com/projeto/uma-histria-de-amor-e-furia#patrocinadores), encontramos a lista de “patrocinadores”. Ao contrário do que quer fazer crer o texto publicado pela Folha, o filme esbanja apoiadores:

CCR
AES Eletropaulo
MRS Logística
Cinemark
Comgás
Sabesp
Itaú
Ihara
HBO
Entre outros.
Não faltam, obviamente, os apoios governamentais diretos ou indiretos:
BNDES
Governo de SP (não importa qual exatamente, basta saber que o estado é governado pelo PSDB há décadas)
Prefeitura de Paulínia
Finep
Governo Federal
Entre outros.

Cúmulo do ridículo

 É possível levar a sério um filme sobre traficantes feito em Águas de Lindóia?

 "Começamos em Águas de Lindóia [interior paulista], porque o aluguel era mais barato. Passamos por Santos e terminamos em São Paulo. Alguns se casaram e tiveram filhos durante o processo." – informa o diretor do filme.

 Para aqueles que não conhecem, Água de Lindóia é uma graciosa estância hidromineral do interior paulista, destino rotineiro para famílias e recém-casados.

 Perguntas

É inevitável propor alguns questionamentos, especialmente pelo fato de que o filme foi financiado com milhões em dinheiro dos contribuintes:
- os apoiadores sabiam do que se tratava a produção e que ela traria uma abordagem francamente simpática aos traficantes, como deixa clara a matéria publicada pela Folha de S.Paulo?

- em caso afirmativo, como justificar tal apoio? Empresas “engajadas” em atividades cultuais costumam justificar seus patrocínios com o fragilíssimo argumento de que tais apoios “agregam valor à marca”, mas qual o valor agregado a uma empresa que liga seu próprio nome à defesa de traficantes e bandidos?

- finalmente, de que adianta os governos gastarem bilhões todos os anos em investimentos em segurança pública e combate e desestímulo ao tráfico de drogas, se ao mesmo tempo permitem e estimulam que produções culturais realizadas também com dinheiro público disseminem uma visão distorcida e mistificadora dos traficantes?

A defesa intransigente da liberdade de expressão (direito inalienável do cidadão) não sustenta que o dinheiro dos contribuintes seja usado para disseminar ideias que afrontam a sociedade e as pessoas honestas. Se um diretor de cinema quer fazer um filme em defesa dos criminosos ou que sirva de propaganda para traficantes, que o faça com seus próprios recursos.

Para finalizar, reiteramos que as informações a respeito do filme e de sua temática são baseadas no depoimento do diretor do filme publicado pelo jornal. Os links estão fotografados também para o caso de magicamente “desaparecerem” quando o filme estrear.


http://midiaamais.com.br/artigo/detalhes/2344/



Divulgação:


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